GUERRILHEIROS, DANKE!
Quando passamos por aquele sinal tão familiar, nos observa um templo
transparente ora seguindo pela direita, ora seguindo à esquerda. Independentes
direções, a volta será sempre mais difícil: podermos ou não voltar, resgatar
atitudes em partidos sentimentos. Voltamos e o mesmo lugar e pessoas, como
postes de setas guerrilheiros, já se foram em despercebido movimento...
Caminhar
rápido pela fuga do stress não equivale
a carregá-lo consigo, às vezes, vou de bike,
desviando de corpos por uma das poucas ciclovias existentes na cidade:
entro no Jardim de Alá, encontro uma “índia” na orla e sigo circulando até a
Pedra do Leme. Parar um pouco, beber uma água-de-côco deveria ser programa de
todos, ainda que não assistam ao espetáculo das ondas sobre areias que protegem
e aproximam o cimentado cinza dos sonhos de Yemanjá... Não estava lá nem era
noite, quando um helicóptero platinado decolou, distanciando-se no espelho
d´água. Naquele deck, quantas vezes
acompanhei de manhã, um “Globocop” partir iluminado rumo às notícias; agora,
apenas outra aeronave descansava sobre o verde, no vai e vem que fascina
crianças e crianças grandes! Voltei à caminhada. Ao passar pelo heliporto um
casal de meia-idade saiu das cercas de arame e aproximando-se, um senhor branco
começou a acenar como se fosse para a cadelinha que guiava... Sem cumprimentos
ou ao menos reparar que eu usava óculos “Yves St. Laurent” perguntou com um
mapa nas mãos: “Hey, where is this?” O “this” era o Parque do Jardim Botânico e mudando o idioma orientei: “Go up the street and always see at the left,
when the wall of races is finished, turn on the left carefully, walk a little
more, another left: so you will be able to find the true green on the right”.
J Ficou me olhando como se a dica fosse de um
“ET”? Resolvi ajudá-los e sugeri: “If you need help, please join us, we walk towards there”. Aceitou relutante e seguimos
caminhando sobre poças de água e no espelho, garças brancas. Curioso perguntei
de onde eram: Suíça. Vôos quase diários pela Swissair a São Paulo (por coincidência a pioneira companhia aérea a romper
fronteiras ideológicas). Perguntei se estavam gostando do Brasil: a senhora
respondeu sim, ele desdenhou palavras “poor
and violent place”. Com raiva fiquei em silencio, depois retruquei
lembrando as estatísticas de suicídio na Europa... Silêncio. Arrisquei outra
vez: “and about Rio, do you like it?” Esperava uma resposta, não uma
provocação: “a dirty city!” Foi o limite, estava prestando um favor e sendo agredido
com um ataque de limpeza! Respondi seco: “Go to Niemeyer’s Museum”. Acho
que pensou que iria xingá-lo e continuou perguntando o que havia de especial
lá? Respondi: “You can see the sun and beautiful above the
dirt”... Perguntou
como chegavam lá: “by taxi is faster”; ele sorrindo, “A thieve taxi driver?" Agora estava furioso e não hesitei em
fulminar: “ladrões são aqueles que financiam veículos!”Abriu um sorriso sem
graça. Calados continuamos uns cinco minutos até que a mulher quebrasse o
silêncio: “wherever else near, can we go
out of Rio?” Irritado com o marido dela ou amante, sei lá, pensei ser
injusto não responder à simpática senhora, nada tinha haver com ele. Sugeri
Paraty, explicando que lá também morava um navegador brasileiro chamado Amir Klink: a lonely navigator
who dare waves and sharks, eating caned food in a little wessel, to cross South
Atlantic”. Lá poderiam visitar casarios coloniais e cruzar “no Saco da
Velha!”Com saveiros e mergulhadores de Ilhas, numa das quais habita o
admirado navegador. Nesta hora o velho me surpreendeu: “from they took the gold”. Interessante, sabia este detalhe... E rápido completei: “Today gold and petro-dollars often go to Swiss Banks,
only brazilian citizens have more than US$ 5 bilions there”. Sob os olhares curiosos de
uma cadelinha vira lata, chegamos ao sinal do clube naval. Ficou me olhando
como se nem quisesse despedidas, perguntando se era político ou filho de um...?
Naturalmente respondi: “apenas ainda voto”. Ainda parado disse-lhe que aqui
tínhamos modernas urnas eletrônicas e um sistema bancário de “invejar” o 1º Mundo.
Em exclamações de surpresa disse que esse País era surpreendente! Que nunca
pensara que alguém do povo escolhido aleatoriamente falasse sua língua tão bem!
Os dólares que mencionara eram muito mais... E quando voltasse à União Européia
ou a isolada Suíça falaria sobre esse "tão educado" encontro e
talvez mudasse alguns conceitos. Ao longe, o templo transparente de São José já reluzia sob
um sol nublado.
Concluiu com um sonoro Danke 1, dizendo-se hospedado em
hotel tradicional na Praia de Copacabana, administrado atualmente por um grupo
inglês. Acredito, já devem ter se hospedado pelo mundo e nos melhores hotéis da
Índia. Mesmo assim me despedi deles com cortês aceno de mão, no anonimato de
quem escreve, rumo ao próximo sinal. E claro que esse diálogo não foi em
Alemão, traduzi para vocês. J
1 Obrigado em alemão.
Dr. Guto
Rio, 23 de outubro de 2003.
UM PRESENTE
Aniversário de uma
guerrilheira que pescava com o avô nos anos 50, nesta mesma Lagoa. E que ousou quebrar “dogmatismos” no
exílio, e mulher, a Teca exigiu uma geladeira para conservar alimentos!
Logo, os compañeros pararam de discutir (objeto
de consumo burguês) e correram para comprar uma... Hoje, alguns são
ministros influentes. Tornou-se executiva e ajuda tantas pessoas. Fala de
cooperativas, de catadores de lixo, de fazer doces com cascas de frutas, sempre
assuntos diferentes para mim. Um presente conhecê-la. DEDICO ESTA CRÔNICA à Tereza
Cristina Denucci Martins:
uma feliz avó. Obrigado por vencerem! Vocês também me ensinaram a ser
tolerante.

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