domingo, 16 de dezembro de 2012


QUASE UGANDA


                  Desafiar o poder dos pessimistas é um exercício diário para sobrevivência do empírico. Dizer isto na rua, sob a fumaça negra de uma escopeta é uma coisa, no conforto de um ônibus com ar-condicionado é outra. A fumaça é a mesma, relativa que esquenta e penetra a derme no cérebro, seja no apinhado ponto em plena Avenida Rio Branco, movimentado palco de passeatas e diretas, de corre-corre e bate-bate nos camelôs, nas bolsas e barracos de mulheres que falam, quando não levam nossa paciência junto...
         Estou um pouco mais atrás, exatamente digitando esta crônica, enquanto seqüelas de pensamentos se vão com solavancos de ultrapassagens e sinais vermelhos. Saímos da frente do edifício da Rádio Nacional, lembram? Próximos do terminal marítimo de passageiros: turistas abastados que chegam por mar às ondas desta cidade... O corredor ainda vazio porque é início de tarde e o sol brilha a pino, num horário que poucos viajam. Pessoas sempre vão ou voltam em determinados compromissos ou saídas, não sei. O mundo vive em movimento, pessoas falando o tempo todo e somos obrigados a co-participar, mesmo sem vontade. Assim relato um diálogo na fileira ao lado e tentarei ser o mais preciso possível porque elas falam rápido demais, atendem ao celular, comem torrones e elogiam o Bope,  e minha digitação de longe não é páreo para a sutileza de seus argumentos. Começaram falando do Renan: “Esse país acabou, concorda fulana? Uma vaca deita com um corrupto e fica tudo por aí, senado safado! Acredita que temos mais senadores que os americanos...” “Menina, você viu a roupa dela?” A outra responde folheando revista; “que roupa, ela se deu foi bem! A jornalista pousou sem e garantiu mais uma putana casa em Barra de São Miguel...” Agora faltava captar onde era essa tal Barra, em Alagoas, sei que no estuário do velho Chico tem o Peba, seria por ali tal local de suntuosas mansões? Digito na dúvida se falaram la puta ou mistura de espanhol de fronteira com macaxeira e barbaridade! Continuam em brasileiro mesmo “Esse país é um luxo, povo bonito!  Povo inteligente  e vota nesses vagabundos, quem será pior hein?”  A fulana completava e a perua arregaçava com a brasilidade: “antigamente se cantava o hino nacional nos pátios, pelo menos uma vez por mês, hoje nem sabem o refrão!” E são limpos viu, jogam papel no chão até lá em Curitiba!” Esta expressão “viu” facilmente identifiquei como um termo paulista, agora por que citara a cidade mais verde do Brasil? Engano, é João Pessoa: ainda visitaremos este maravilhoso Tropical Tambaú! Ou moraria lá perto do Teatro do Paiol? Estavam explodindo as raízes trigueiras quando acusaram de pretos sujos e favelados os únicos que roubavam na tropa de elite e gritariam vivas ao capitão Nascimento! Devem ter assistido alguma cópia pirata da fita, pois nem em circuito estreou ainda (exceção ao Festival de Cinema do Rio). Por coincidência passamos a pouco em frente ao velho cine Odeon, na Cinelândia, hoje Odeon-BR, reformados os estofados, as filmadoras francesas, as lanternas orientais e mantidos pela Petrobrás - uma vanguardista iniciativa cultural. Outras salas famosas foram abaixo ou viraram igrejas universal, empresa multinacional creio eu, isenta de impostos. Mas continuaram as peruas: “se tivéssemos a volta  da monarquia, as coisas melhorariam porque o bisneto de D. Pedro II mandaria pra cadeia todos os casacas!” A que casacas estariam se referindo? Os vira- casacas,os infiéis que mudam de partido ou os casacos de pele contrabandeados da loja Daslu e remessas descasadas ao exterior? Certamente não seriam, corruptos nos partidos compram peles de lobo para parecer cordeiros. Elas nem eram excelentíssimas esposas, andavam de ônibus e o sinônimo entre as classes é apenas o motor Mercedes... Um M de Maria a louca ou a filósofa do PT, acrescente-se do B, e um monte de aloprados assaltando nas cidades... Ela desceu na Praia do Flamengo, em frente ao edifício Biarritz, onde habitaram Lacerda e alguns embaixadores, belas varandas de ferro! Arquitetura de uma cidade gradeada, enfeitada de vacas coloridas, a cow parade, novidade que veio da triste Suíça: vacas de arte! Não que vomitam torrone mastigado da classe média! Antes de descer concluiu a que parecia ter tido o cartão clonado em loja da Uruguaiana: “não adianta esquentar não filha: aqui é uma Uganda melhorada!” 
                A música ambiente continuou tocando, quem cantava era Gal, e por alguns instantes me lembrei da tropicália e de peitos caídos, enquanto observava Maria, chamo assim porque já ia longe de salto e a paz ia voltando ao interior do veículo, com poucos e calados passageiros. A jovem continuou na janela oposta, sem par para fofocar e nem escrevi metade dos absurdos, me recusaria. A Democracia aceita assassinos de traficantes e até aqueles radicalmente contra ela, como Idi Amim, boçal que governou esse país africano por quase uma década. Dada aqui é maravilha que pára no ar e se chama Bebel! É, pensando bem, com 70% de eleitores obrigados a votar e no nível elementar somos uma quase Uganda.

                                                   RJ, novembro de 2007.

* Dr. Guto já teve um notebook “subtraído” nesta mesma linha de ônibus...



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