QUASE UGANDA
Desafiar o poder dos pessimistas é
um exercício diário para sobrevivência do empírico. Dizer isto na rua, sob a
fumaça negra de uma escopeta é uma coisa, no conforto de um ônibus com
ar-condicionado é outra. A fumaça é a mesma, relativa que esquenta e penetra a
derme no cérebro, seja no apinhado ponto em plena Avenida Rio Branco, movimentado
palco de passeatas e diretas, de corre-corre e bate-bate nos camelôs, nas bolsas
e barracos de mulheres que falam, quando não levam nossa paciência junto...
Estou um
pouco mais atrás, exatamente digitando esta crônica, enquanto seqüelas de
pensamentos se vão com solavancos de ultrapassagens e sinais vermelhos. Saímos
da frente do edifício da Rádio Nacional, lembram? Próximos do terminal marítimo
de passageiros: turistas abastados que chegam por mar às ondas desta cidade...
O corredor ainda vazio porque é início de tarde e o sol brilha a pino, num
horário que poucos viajam. Pessoas sempre vão ou voltam em determinados
compromissos ou saídas, não sei. O mundo vive em movimento, pessoas falando o
tempo todo e somos obrigados a co-participar, mesmo sem vontade. Assim relato um
diálogo na fileira ao lado e tentarei ser o mais preciso possível porque elas
falam rápido demais, atendem ao celular, comem torrones e elogiam o Bope, e minha digitação de longe não é páreo para a
sutileza de seus argumentos. Começaram falando do Renan: “Esse país acabou,
concorda fulana? Uma vaca deita com um corrupto e fica tudo por aí, senado
safado! Acredita que temos mais senadores que os americanos...” “Menina, você
viu a roupa dela?” A outra responde folheando revista; “que roupa, ela se deu
foi bem! A jornalista pousou sem e garantiu mais uma putana casa em
Barra de São Miguel...” Agora faltava captar onde era essa tal Barra, em
Alagoas, sei que no estuário do velho Chico tem o Peba, seria por ali tal local
de suntuosas mansões? Digito na dúvida se falaram la puta ou mistura de espanhol
de fronteira com macaxeira e barbaridade! Continuam em brasileiro mesmo “Esse
país é um luxo, povo bonito! Povo
inteligente e vota nesses vagabundos,
quem será pior hein?” A fulana
completava e a perua arregaçava com a brasilidade: “antigamente se cantava o
hino nacional nos pátios, pelo menos uma vez por mês, hoje nem sabem o refrão!”
E são limpos viu, jogam papel no chão até lá em Curitiba!” Esta expressão “viu”
facilmente identifiquei como um termo paulista, agora por que citara a cidade
mais verde do Brasil? Engano, é João Pessoa: ainda visitaremos este maravilhoso
Tropical Tambaú! Ou moraria lá perto do Teatro do Paiol? Estavam explodindo as
raízes trigueiras quando acusaram de pretos sujos e favelados os únicos que
roubavam na tropa de elite e gritariam vivas ao capitão Nascimento! Devem ter
assistido alguma cópia pirata da fita, pois nem em circuito estreou ainda
(exceção ao Festival de Cinema do Rio). Por coincidência passamos a pouco em
frente ao velho cine Odeon, na Cinelândia, hoje Odeon-BR, reformados os
estofados, as filmadoras francesas, as lanternas orientais e mantidos pela
Petrobrás - uma vanguardista iniciativa cultural. Outras salas famosas foram
abaixo ou viraram igrejas universal, empresa multinacional creio eu, isenta de
impostos. Mas continuaram as peruas: “se tivéssemos a volta da monarquia, as coisas melhorariam porque o
bisneto de D. Pedro II mandaria pra cadeia todos os casacas!” A que casacas
estariam se referindo? Os vira- casacas,os infiéis que mudam de partido ou os casacos
de pele contrabandeados da loja Daslu e remessas descasadas ao exterior?
Certamente não seriam, corruptos nos partidos compram peles de lobo para
parecer cordeiros. Elas nem eram excelentíssimas esposas, andavam de ônibus e o
sinônimo entre as classes é apenas o motor Mercedes... Um M de Maria a louca ou
a filósofa do PT, acrescente-se do B, e um monte de aloprados assaltando nas
cidades... Ela desceu na Praia do Flamengo, em frente ao edifício Biarritz,
onde habitaram Lacerda e alguns embaixadores, belas varandas de ferro!
Arquitetura de uma cidade gradeada, enfeitada de vacas coloridas, a cow
parade, novidade que veio da triste Suíça: vacas de arte! Não que vomitam
torrone mastigado da classe média! Antes de descer concluiu a que parecia ter
tido o cartão clonado em loja da Uruguaiana: “não adianta esquentar não
filha: aqui é uma Uganda melhorada!”
A música ambiente continuou
tocando, quem cantava era Gal, e por alguns instantes me lembrei da tropicália
e de peitos caídos, enquanto observava Maria, chamo assim porque já ia longe de
salto e a paz ia voltando ao interior do veículo, com poucos e calados
passageiros. A jovem continuou na janela oposta, sem par para fofocar e nem
escrevi metade dos absurdos, me recusaria. A Democracia aceita assassinos de
traficantes e até aqueles radicalmente contra ela, como Idi Amim, boçal que
governou esse país africano por quase uma década. Dada aqui é maravilha que
pára no ar e se chama Bebel! É, pensando bem, com 70% de eleitores obrigados a
votar e no nível elementar somos uma quase Uganda.
RJ, novembro de
2007.
* Dr. Guto
já teve um notebook “subtraído” nesta mesma linha de ônibus...

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